Corrupção nos negócios internacionais: dilema ético, realidade cultural (I)

No dia a dia do mundo dos negócios e das relações internacionais, frequentemente nos deparamos com a falta de consenso e critérios uniformes e universais sobre o que constitui um comportamento ético responsável. A resposta para a pergunta fundamental, "O que é ético e o que não é em ambientes internacionais?", se perde em um verdadeiro campo minado cultural.
A corrupção é repetidamente e unanimemente considerada um dos "artefatos" mais disseminados no cenário internacional, e seus efeitos sobre os recursos financeiros e, sobretudo, sobre a consciência e o arcabouço ético de empresas e organizações são devastadores. Podemos definir corrupção como "o uso perverso da autoridade em decorrência de critérios de ganho pessoal, não necessariamente econômico, e que inclui suborno, nepotismo, extorsão, peculato e o uso de recursos e bens alheios para fins e propósitos particulares do indivíduo" (C. Muzaffar, 1980). A essa lista de tais atos reprováveis, devemos acrescentar a manipulação sexual em seu sentido mais amplo.
O problema reside no fato de que, embora a corrupção seja severamente punida em alguns países, em outros ela é convenientemente ignorada, tolerada ou até mesmo praticada abertamente. Assim, as diferenças culturais em relação a como iniciar, facilitar, manter, agilizar e concluir negócios e acordos comerciais representam sempre um desafio evidente para gestores e profissionais internacionais, especialmente quando também precisam lidar com o que é classificado como prática corrupta em seu próprio país ou cultura. Quando isso acontece, eles devem resolver o que é conhecido como o algoritmo ético de Donaldson: uma determinada prática comercial ou profissional é permitida quando é moral ou legalmente aceitável no país anfitrião, mas não no nosso?
Questões como "devemos nos esforçar ao máximo para fechar esta venda, assinar este contrato ou chegar a este acordo quando sabemos que o que nos pedem é eticamente repreensível e/ou um crime segundo as nossas leis?" são, entre muitas outras, consequências bastante comuns do problema ético levantado por Donaldson.
Mas para resolver essa e outras questões éticas em contextos internacionais, é essencial primeiro compreender as causas profundas da corrupção, suas origens. Estudos conduzidos por organizações de prestígio dedicadas à análise da corrupção internacional — como a Transparência Internacional e a Consultoria de Pesquisa Política e Econômica — mostram que, nos países onde a corrupção é mais disseminada, existe uma correlação entre a corrupção e dois fatores que frequentemente ocorrem simultaneamente: pobreza e burocracia/regulamentação excessiva. De modo geral, os países no topo dos rankings de corrupção têm um PIB per capita muito baixo (em muitos casos, menos de US$ 600 por ano). Significativamente, os países no extremo oposto do ranking — os menos corruptos — estão invariavelmente entre os mais ricos do mundo.
Mas estudos também mostram que os países onde a corrupção é mais comum compartilham alguns parâmetros culturais, sem que isso signifique que um país com esse perfil cultural seja necessariamente corrupto:
– Essas são culturas orientadas para o relacionamento: contatos pessoais e redes de contatos são cruciais. As expressões guanxi (China), wastah (Egito) ou blat (Rússia), todas referentes ao conceito de relacionamento ou conexão, compartilham as mesmas conotações.
– São sociedades fortemente hierárquicas, com profundas diferenças sociais e de status.
Por fim, essas são culturas marcadamente policrônicas, o que significa que têm uma atitude muito permissiva em relação ao conceito, valor e uso do tempo cronológico (pontualidade, horários, planos, compromissos, prazos, etc.). Nessas culturas, empresários de culturas monocrônicas — o outro lado da "moeda" temporal — podem ser tentados a se envolver em práticas corruptas para agilizar decisões, garantir o cumprimento de prazos e assim por diante. (Vale a pena notar, e como curiosidade, que a palavra inglesa "tip" provavelmente deriva da expressão "to ensure promptness" [garantir a prontidão]). Naturalmente, e como você já deve ter deduzido, a cultura inglesa é marcadamente monocrônica.
Na segunda parte do artigo, veremos, entre outras coisas, algumas recomendações para navegar com sucesso no labirinto ético imposto pela corrupção em ambientes internacionais.

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