Entrevista com João Rosa La, Embaixador de Portugal em Espanha: "Uma boa cooperação política com Espanha permite a estruturação de uma Plataforma Ibérica."

– Uma das principais premissas do Governo Durão Barroso era realizar as reformas necessárias para estabilizar a economia do país. As expectativas foram atendidas?
Algumas dessas metas foram alcançadas, enquanto outras estão em fase de implementação. Nos dois primeiros anos de governo, os gastos e investimentos públicos foram reduzidos, a tal ponto que a UE já retirou a acusação contra Portugal por descumprimento do Pacto de Estabilidade e Crescimento, visto que o país apresentava um déficit superior a 4%.
Esse esforço significativo foi acompanhado por importantes reformas estruturais. Entre elas, destacam-se as reformas financeiras destinadas a conter os gastos públicos, bem como as reformas no sistema de saúde, principal beneficiário desses gastos. Além disso, foram implementadas leis trabalhistas, bem como reformas judiciais e legislativas, que agilizaram os processos de cobrança de dívidas e proporcionaram maior segurança aos investimentos. Outra reforma concentrou-se na administração pública e, por fim, as reformas tributárias reduziram os impostos para as empresas e introduziram mudanças substanciais em relação à propriedade privada.
Essa situação difícil foi agravada pelo clima econômico global instável, que desacelerou o crescimento econômico, colocando-o em 0,8% em 2004, em vez da previsão de 1,5%.
– Como você definiria as relações políticas e econômicas entre Espanha e Portugal?
Em termos de relações políticas, temos o mesmo sistema democrático, partilhamos o mesmo projeto europeu e as mesmas estruturas de defesa e segurança, pelo que os dois países encontraram um nível razoável de cooperação.
O quadro da UE tem sido crucial para eliminar complexidades nas relações entre os dois países. Existem mecanismos políticos de consulta entre Espanha e Portugal, que permitem a resolução de quaisquer divergências que possam surgir. Estas relações positivas são essenciais para o estabelecimento de infraestruturas comuns e para a estruturação de uma Plataforma Ibérica. Um exemplo dessa infraestrutura comum é o MIBEL – o Mercado Ibérico de Eletricidade – cujo Tratado entrou em vigor a 20 de abril.
Do ponto de vista econômico, o forte desempenho da economia espanhola influenciou positivamente a balança comercial de Portugal. Desde 1994, a Espanha é o principal parceiro comercial de Portugal, representando 20% das nossas exportações e quase 30% do total das nossas exportações. A Espanha exporta mais para Portugal do que para todo o continente americano junto. Além disso, os investimentos entre os dois países cresceram significativamente nos últimos anos, com Portugal investindo mais na Espanha do que o contrário.
Existe uma crescente cooperação comercial e um maior entendimento entre os dois mercados.
-Que mensagem você poderia deixar para os empresários espanhóis?
Os empresários espanhóis que visitam Portugal devem fazê-lo com a mente aberta, tendo em conta que se encontram num país diferente que precisa de ser compreendido. Temos todas as condições para colaborar de forma mais estreita e crescente, para benefício mútuo e para construir parcerias. Para alcançar este objetivo, precisamos de nos conhecer melhor, de trabalhar em conjunto de forma mais eficaz, tanto na Península Ibérica como noutros mercados (Europa de Leste, América Latina ou África).

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