O grande mercado russo

A mesa-redonda dedicada exclusivamente ao mercado russo foi, sem dúvida, uma das palestras que mais despertou o interesse do público, como demonstra o grande número de participantes que ocupou praticamente toda a sala.
O principal objetivo da sessão foi transmitir e aprofundar os conteúdos relacionados com a área económica e empresarial que possam ser do interesse das empresas espanholas.
Para moderar a discussão, Eldar Mamedov, diretor comercial do Grupo Euroempresa, explicou inicialmente que a Federação Russa representa um mercado ambicioso para a Europa e a América do Norte, que tem se caracterizado nos últimos anos pela consolidação de sua estabilidade política e pelo sucesso das reformas realizadas nas esferas fiscal, legislativa e econômica.
Após suas observações, o moderador passou a palavra ao embaixador russo, que então presidiu a discussão. Mikhail Kamynin iniciou sua fala observando que a presença de empresas espanholas em seu país é limitada, embora essa tendência pareça estar mudando gradualmente. O embaixador apontou os fatores que contribuem para essa mudança, citando a abertura econômica e a globalização que definem o cenário mundial, bem como a estreita cooperação entre a Rússia e a UE no esforço de criar um espaço europeu comum. Ele também afirmou que "uma das características do mercado russo é a estabilidade política, que se reflete no apoio que os partidos parlamentares demonstraram ao presidente Putin nas recentes eleições". Nesse sentido, Kamynin explicou que "isso é fundamental para a reforma do arcabouço legal e, a curto prazo, para a renovação de todo o arcabouço legislativo e econômico, a fim de atrair investimentos estrangeiros e transformar o país em uma economia de mercado moderna".
O embaixador russo enfatizou a importância das reformas administrativas em curso e o objetivo de minimizar a intervenção estatal na economia. Elogiou os resultados positivos dessas reformas, que sustentam uma tendência estável de crescimento econômico, e observou que a Rússia possui a segunda maior reserva de ouro do mundo. Kamynin concluiu afirmando que o país continuará a modernizar sua gestão e incentivou as empresas espanholas a entrarem no mercado russo.
Após suas observações, Anatoly Evdokimov, chefe da Delegação Comercial da Federação Russa na Espanha, analisou as relações econômicas e comerciais entre os dois países. Ele enfatizou que essa relação bilateral é relativamente recente, mas tem apresentado uma tendência crescente.
O palestrante comentou que "a presença russa no mercado espanhol, e vice-versa, não corresponde ao potencial ou às necessidades de nenhum dos países". Entre os dados apresentados, Evdokimov observou que "a participação da Rússia nas exportações espanholas é de 0,6% e sua participação nas importações é de 1,6%, o que significa que a Espanha representa apenas 1,2% de seu comércio com a Rússia em comparação com todos os outros países do mundo". Ele então mencionou empresas espanholas que alcançaram posição de liderança no mercado russo, como Chupa Chups, Kelme, Campofrío, Nutrexpa e Uralita.
Entre os setores que poderiam ser atrativos para o investimento espanhol, Evdokimov mencionou a indústria alimentícia, materiais de construção, bens de consumo, transporte e comunicações, energia e turismo. Para concluir sua apresentação, ele se referiu aos desenvolvimentos mais recentes nas relações econômicas e comerciais entre os dois países, como a Expohabitat, feira espanhola realizada em Moscou em junho passado, e a quarta sessão da Comissão Intergovernamental Mista Russo-Espanhola de Cooperação Econômica e Industrial, realizada em Madri em 23 de janeiro.
Na sequência, Héctor Morell, presidente do Grupo Morell e cônsul honorário da Federação Russa na Andaluzia, tomou a palavra. Com base em sua experiência empresarial no mercado russo, ele enfatizou a importância de compreender profundamente o país para determinar a melhor forma de entrar nele. Morell destacou, portanto, a necessidade de considerar primeiramente sua vasta extensão territorial e complexa logística, bem como seu clima rigoroso, que pode dificultar as comunicações. Da mesma forma, o palestrante elogiou o alto nível de educação e especialização da população russa e recomendou o contato com parceiros, agentes e estagiários russos ao desenvolver um projeto no país.
Ele então indicou que o processo de privatização agrícola poderia oferecer múltiplas oportunidades de negócios para empresas espanholas e também observou que a Rússia deverá ingressar na Organização Mundial do Comércio muito em breve.
Morell confirmou então a atual estabilidade política e econômica do país e mencionou o acordo assinado entre a Rússia e a América do Norte, que garante aos EUA o fornecimento anual de US$ 50 bilhões em gás e petróleo. Ele também observou que "a carga tributária é bastante baixa, estando entre as mais baixas do mundo; contudo, podem-se encontrar alguns problemas de corrupção, embora sejam casos isolados".
Na sequência, Jesús María Herrasti, Vice-Presidente da Mondragón International e Presidente do Comitê Bilateral de Cooperação Empresarial entre a Rússia e a Espanha, argumentou que o mercado russo ainda oferece oportunidades significativas para empresas espanholas com visão de longo prazo. Embora reconhecendo que a Espanha está atrás de outros países no acesso a esse mercado, ele enfatizou seu considerável potencial. Herrasti também observou que "além da importância da exploração de recursos naturais para a economia russa, os últimos anos testemunharam um notável aumento na demanda interna, com taxas de crescimento em torno de 6%". Indicando que os fluxos de investimento foram positivos no ano passado e considerando o processo de reindustrialização em curso no país, o palestrante recomendou os seguintes setores como potencialmente atrativos para empresas espanholas: meio ambiente, agronegócio, produção agrícola e maquinário, construção civil, bens de capital, turismo e todos os setores relacionados à habitação, incluindo alimentos, azulejos e eletrodomésticos.
Dado que quase toda a atividade comercial se concentrou em Moscou ou São Petersburgo, Herrasti insistiu que "se dê mais atenção a outras cidades relativamente grandes e àquelas áreas caracterizadas por possuírem recursos próprios". Para concluir, destacou o trabalho das administrações, das Câmaras de Comércio e do Conselho Superior das Câmaras, e elogiou seus esforços em prol da Rússia.
O discurso seguinte foi proferido por José Salgado, sócio-gerente da Troika Consultores SL e ex-diretor-geral da área da Rússia e CEI da Chupa Chups SA, que se concentrou em transmitir a experiência de um dos maiores grupos de investimento espanhóis na Rússia, a Chupa Chups, que se estabeleceu no mercado russo em 1987.
Salgado iniciou sua apresentação destacando a importância da empresa no mercado russo, citando seus números de faturamento, que atualmente representam 25% da receita total, e seu lucro, que corresponde a 50% do lucro total do Grupo. Ele abordou a importância de ter um parceiro russo para implementar a estratégia de negócios e avaliou o compromisso envolvido em estabelecer uma presença no mercado com fábrica própria para produção local e consolidar a rede de vendas e distribuição. Entre os desafios enfrentados, Salgado lembrou a crise financeira de 1998: "Naquela época, os grandes exportadores ocidentais enfrentaram enormes dificuldades para permanecer no mercado, pois a drástica desvalorização do rublo os impediu de competir com as indústrias locais já estabelecidas". No entanto, a presença da empresa se consolidou a médio prazo, "pois tínhamos uma vantagem competitiva sobre os exportadores, o que nos permitiu alcançar uma participação de mercado de quase 90%", concluiu o palestrante.
Para Salgado, essa posição de liderança não é exclusiva da empresa, mas aplicável a outros investidores espanhóis na Rússia. Por fim, ele destacou os três aspectos que, em sua opinião, são fundamentais para entrar nesse mercado: visão, comprometimento humano e financeiro e aprendizado.
A experiência empresarial espanhola no país foi complementada pela empresa COVEX, por meio das declarações de seu presidente, Fernando Calvo Mondelo, e com base na trajetória da empresa farmacêutica no mercado russo durante os últimos 12 anos.
Assim, Calvo comentou sobre a preparação e a cultura demonstradas pela população russa como um dos aspectos mais valiosos. Ele também aludiu às enormes mudanças estruturais que o país vivenciou na época, após deixar o COMECON, um sistema que impunha inúmeras dificuldades de acesso. "Vimos muitas oportunidades, porque na primeira farmácia em Moscou, as pessoas faziam fila e os estabelecimentos estavam sem estoque, então vendíamos tudo o que o Ministério da Saúde nos permitia", continuou o presidente da COVEX. Segundo ele, a Espanha não tinha nenhuma presença no setor farmacêutico; no entanto, atualmente, o produto da empresa ocupa o segundo lugar no ranking geral de produtos farmacêuticos no mercado russo e continua subindo. "A maneira de trabalhar com a Rússia é ser sério. Entregamos por via aérea em 24 horas e exigimos pagamento antecipado. Garantimos que o cliente nos conheça e entenda para onde está indo o seu dinheiro; convidamos os clientes para a Espanha e mostramos a eles nossa fábrica e nosso país", afirmou Calvo. Para o presidente da empresa, o sucesso na Federação Russa é mais importante do que sua presença em países como os Estados Unidos e o Japão, onde também possui uma base. Ao concluir sua apresentação, Calvo enfatizou a importância da mudança no país e a necessidade de adaptação a ela. Ele também transmitiu à plateia a possibilidade de um acesso mais fácil à Europa Oriental, uma vez que o mercado russo esteja consolidado.
Para concluir esta parte da mesa-redonda, Saúl Álvarez, Diretor do Departamento de Comércio Exterior da Caja Madrid, tomou a palavra. Ele detalhou o funcionamento do sistema bancário e discutiu a cobertura de riscos no país. Começou contrastando o enorme potencial do mercado russo com o pequeno volume de comércio que mantém com a Espanha. O representante do banco passou então a avaliar a estrutura do comércio exterior do país, sua abertura aos processos de produção internacionais, a gestão privada da indústria e do comércio e a garantia de ser uma república estável e democrática. Concluiu afirmando a significativa oportunidade disponível para as empresas espanholas que direcionarem seus esforços de internacionalização para a Rússia.
Álvarez mencionou o baixo nível de atividade operacional no país, o que "faz com que os mecanismos de cobrança e financiamento não funcionem de forma ideal". Em seguida, ele analisou o sistema bancário russo e suas práticas padrão de hedge, bem como seus mecanismos de cobrança e financiamento.
O palestrante destacou a reforma do banco central russo, que envolve a liquidação de bancos insolventes e regulamentações rigorosas para a criação de novos, e que já está apresentando resultados. Ele apresentou uma lista de grupos bancários, distinguindo entre bancos estatais, que oferecem garantia total, e aqueles com forte reputação nacional, que também oferecem significativa confiabilidade. Enfatizou o trabalho do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BERD), que financia projetos e cobre riscos, e também mencionou a presença de bancos internacionais que apoiam empresas estrangeiras. Álvarez observou, a esse respeito, que, no caso da Espanha, resta apenas o escritório de representação do BBVA.
Em relação à abrangência, o palestrante indicou que ela gira em torno de bancos, bolsas de estudo e, em menor escala, empresas. Referindo-se novamente ao caso espanhol, explicou que o CESCE possui uma linha de negócios bastante útil no mercado.
"Os bancos russos sempre foram muito rigorosos com as normas da CCI", destacou Álvarez. "Os cheques bancários são amplamente utilizados no mercado interno russo, assim como o crédito ao comprador, tanto como meio de cobrança quanto de financiamento", concluiu.
Após as apresentações dos palestrantes, o moderador, Eldar Mamedov, reuniu e refletiu sobre as diferentes apresentações, concluindo a sessão ao resumir o sucesso das empresas espanholas em quatro fatores-chave: um clima político favorável; a importância do conhecimento da cultura, mentalidade e costumes locais; a busca por um parceiro local; e a capacidade da empresa de atuar a longo prazo.
Por fim, foi proposto o início do período de perguntas, no qual foram debatidos temas como a presença limitada de bancos espanhóis na Rússia e as leis que incentivam o investimento estrangeiro no país.

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