A Cesce apresentou em Madrid a décima primeira edição do seu "Relatório Panorama Internacional", uma ferramenta de análise estratégica desenvolvida pela sua Unidade de Risco País. O evento, realizado em 17 de junho de 2026, delineou as principais tendências geopolíticas e econômicas que moldarão o futuro imediato, identificando cinco áreas de tensão: o enigma de Taiwan, as revoluções da Geração Z, o sobreendividamento soberano, as disputas sobre rotas marítimas e o complexo dilema enfrentado pela União Europeia em relação aos Estados Unidos e à China.
O evento foi aberto por Pablo de Ramón-Laca, CEO da Cesce, que enfatizou a necessidade de as empresas espanholas incorporarem os riscos de um cenário internacional cada vez mais fragmentado em suas estratégias. “Vivemos e atuamos em um ambiente internacional caracterizado por atritos e pelo declínio da cooperação multilateral. Nessa mudança de paradigma, as empresas espanholas não podem se dar ao luxo de serem meras observadoras”, afirmou, destacando o relatório como “uma bússola ideal para continuar a abrir mercados com ousadia, força e confiança”.
O enigma de Taiwan e sua dependência de microchips
Um dos maiores riscos para a economia global reside na ilha de Taiwan. Segundo Rafael Loring, economista responsável pela Ásia na Cesce Country Risk, sua importância vai além de sua posição estratégica na linha de frente da defesa dos EUA no Pacífico. O verdadeiro perigo está em seu quase monopólio na fabricação de semicondutores. "O grande risco que Taiwan representa para o mundo inteiro é seu monopólio na fabricação de microchips", explicou Loring. A empresa taiwanesa TSMC controla mais de 60% do mercado global de semicondutores e mais de 90% dos chips mais avançados. De acordo com o analista, "uma interrupção nessa fábrica causaria uma perturbação brutal no mundo, e há estimativas de que poderia gerar uma contração do PIB global sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial".
Geração Z e descontentamento nos mercados emergentes
A instabilidade social nos países em desenvolvimento tem um novo protagonista: a Geração Z. Lidia Candal, economista responsável pela África na Cesce Country Risk, destacou que, embora cada protesto tenha seus próprios gatilhos específicos, existe uma origem comum. "A origem comum de todos esses protestos é o impacto da pandemia de COVID-19 e a consequente crise inflacionária", afirmou. Esse descontentamento com o aumento do custo de vida é agravado por fatores como o alto nível de digitalização entre uma geração de nativos digitais, seu significativo peso demográfico e a frustração generalizada com a corrupção e a ineficiência política, criando um terreno fértil para a instabilidade.
O poder silencioso da dívida e o papel da China
Com a dívida global ultrapassando US$ 350 trilhões, três vezes o PIB mundial, o endividamento tornou-se um instrumento de poder. María José Chaguaceda, economista responsável pela América Latina na Cesce Riesgo País, analisou o crescente papel da China nesse novo cenário financeiro. Embora acredite que o yuan esteja "longe de rivalizar com o dólar" devido à falta de liquidez nos mercados financeiros e à ausência de plena conversibilidade, ela destacou a crescente influência de Pequim. "Graças à sua grande capacidade de poupança, a China está se posicionando e ganhando mais peso nas reestruturações da dívida", afirmou. Esse poder financeiro, segundo Chaguaceda, "é mais silencioso que o poder militar, mas, às vezes, pode ser ainda mais eficaz".
O dilema da União Europeia: entre os EUA e a China
A União Europeia encontra-se numa encruzilhada estratégica, pressionada pelos seus dois maiores parceiros comerciais. Ricardo Santamaría, diretor de Gestão de Risco País e Dívida da Cesce, descreveu o desafio: “Um dos seus principais parceiros comerciais, os Estados Unidos, está a erguer uma barreira tarifária, e o outro, a China, está a tornar-se cada vez mais agressivo no seu comércio”. Santamaría observou que, nos últimos dez anos, a China duplicou o seu excedente comercial com a UE, enquanto os Estados Unidos reduziram para metade o seu. Perante esta situação, concluiu que “a União Europeia está obrigada a reagir e a tornar-se a arquiteta do seu próprio destino, a descobrir as suas capacidades e a abrir um diálogo franco com ambas as potências”.
Tensões nas rotas marítimas, artérias do comércio global
O relatório também destaca a crescente fragilidade das cadeias de suprimentos globais devido às tensões em pontos estratégicos do comércio marítimo. Pablo Arjona, economista responsável pelo Oriente Médio na Cesce Riesgo País, observou que 90% do comércio global é transportado por via marítima. "Os espaços marítimos são as artérias que sustentam o fluxo da economia", afirmou. Conflitos como a crise do Mar Vermelho demonstraram a vulnerabilidade do sistema, causando "profundas distorções nas cadeias de valor" e evidenciando que o controle dos oceanos continua sendo fundamental para a hegemonia global.
Principais perguntas e respostas
Quais são os principais riscos geopolíticos para a economia global, de acordo com o relatório Cesce?
O Relatório Panorama Internacional da Cesce identifica cinco riscos principais: a dependência global de microchips taiwaneses, a instabilidade social impulsionada pela Geração Z em países emergentes, o uso da dívida soberana como instrumento de poder por potências como a China, as tensões em rotas marítimas cruciais e o dilema estratégico da União Europeia diante do protecionismo dos EUA e da concorrência da China.
Por que Taiwan é um ponto crítico para a economia global?
Taiwan é crucial devido à sua posição dominante na produção de semicondutores. A empresa taiwanesa TSMC fabrica mais de 90% dos chips mais avançados do mundo. Um bloqueio ou conflito na ilha poderia interromper a cadeia de suprimentos global para os setores de tecnologia, automotivo e outros, desencadeando uma crise econômica de magnitude não vista desde a Segunda Guerra Mundial.
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